Discutindo Assistência Estudantil

Posted on 30 de março de 2011

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Por Carlos Henrique, Diretor de AEST da UEE – SP

O tema da assistência estudantil é recorrente nas mobilizações dos estudantes Brasil a fora. Não é a toa. Ela interfere na formação dos estudantes, nas condições para o mesmo continuar na universidade, na sua vida pessoal e social. Por isso, a concepção de assistência estudantil deve ser melhor debatida e ser entendida de uma forma mais ampla, que não se limite aos bandejões e moradias estudantis.

Afinal, o que é a assistência estudantil? Em suma, ela compreende política públicas para enfrentar qualquer obstáculo que o estudante possa ter para a conclusão do seu curso. Nesse sentido, além das pautas fundamentais (e essenciais), como Bandejão (seja pela construção de mais restaurantes universitários ou pelo barateamento do preço da refeição), mais moradias estudantis, a luta por mais bolsas, essa política inclui questões tão importantes quanto: como o acesso a informação e ao conteúdo das aulas ministradas nas universidades (na prática, o acesso aos livros e textos dado pelos professores ou à internet) e a questão da saúde do aluno, como os Hospitais Universitários, Centro de Práticas Esportivas (clubes com piscina, quadras, academia) e assistência em tratamentos de problemas psicológicos, dentários etc.

Uma coisa básica para se fazer uma boa graduação é ler os textos exigidos pelos professores. É impossível fazer uma prova sem discutir as leituras obrigatórias. E para isso é preciso ter em mãos os benditos textos.

Para muitas pessoas é bem simples resolver o problema: ir até o xerox e fazer as cópias pedidas pelos professores. Mas será que todo o estudante tem condições de tirar as cópias. É uma reflexão que fiz quando fui atrás da apostila da disciplina de História Moderna II do curso de História da Universidade de São Paulo – USP (minha universidade) e descobri que ela custa R$ 120,00 (num semestre!). Sem contar os gastos com apostilas das outras matérias e livros para fazer seminários, trabalhos e leituras complementares.

Há algum tempo, na USP, outros colegas de curso e eu temos discutido a necessidade de digitalizar a bibliografia do curso. Isso daria a possibilidade de economizar um dinheiro e garantir que todos os estudantes possam ler… o que é exigido. No caso da USP, com a digitalização, é possível imprimir os textos nas salas pró-aluno (lan houses para uso específico dos estudantes da USP, que toda universidade no Brasil deveria ter, para uso irrestrito dentro da universidade). Nos cursos da Faculdade de Letras, Filosofia e Ciências Humanas, após uma campanha de abaixo-assinado, foi conquistado o direito de fazer 750 cópias mensais!

Uma vez, numa conversa com a antiga coordenadora da Coseas (Coordenadoria de Assistência Social da USP), havia uma proposta interessante por parte da coordenadoria: a criação de uma “Bolsa Xerox”. A universidade daria R$ 150,00 por mês para que o estudante beneficiado pela bolsa pudesse fazer as cópias necessárias. O projeto não foi a frente, pois o reitor, homem de confiança do PSDB, barrou o projeto.

É uma realidade, esta, para muitos no Brasil. E é claro que o problema é de política pública das universidades, portanto, de assistência estudantil.

Ninguém, também, consegue estudar sem as condições físicas e mentais minimamente saudáveis. É muito comum o deslocamento do jovem para outras cidades, longe da família, namorada dos amigos, enfim, para uma realidade muito diferente. E os impactos vêm. Depressão, isolamento social e uso de drogas são as consequências mais comuns.

O acesso à clubes esportivos, centros culturais e Hospitais Universitários são fundamentais para uma graduação proveitosa. Um estudante que pratica esporte (e isso qualquer médico sério pode confirmar) tem menos riscos de ficar depressivo e ficar vulnerável ao mundo das drogas, sem contar que melhora -e muito – o aproveito acadêmico (dados do Coseas – www.coseas.usp.br). Ademais, quem pratica esporte fica menos vulnerável em contrair doenças.

Inclusive, cabe aqui dizer, que doente ninguém consegue estudar. Uma constatação tão simples é ignorada pelos reitores das universidades que insistem em terceirizar os hospitais universitários (e são ajudados pela MP 495 de Lula, que regulamenta a iniciativa privada dentro das universidades). A precarização de um serviço essencial (a garantia de tratamento adequado de doenças) é um desserviço. Da mesma forma, tratamentos odontológicos e psiquiátricos devem ser incluídos na concepção de assistência estudantil.

Onde eu moro, no Conjunto Residencial da USP, é comum estudantes escolherem comprar o remédio para curar uma gripe ao invés de xerocar o texto da próxima aula. E essa realidade é inaceitável.

Espero que a conclusão de todos seja a mesma que a minha: a assistência estudantil é mais ampla do que pensamos. Foi uma conclusão que eu cheguei no processo de construção (que ainda continua) do I Seminário Nacional de Assistência Estudantil da UNE. Essa é uma pequena contribuição que deixo para a construção desse importante espaço que deve servir para potencializar a luta em cada universidade do Brasil por melhores condições de estudo.

 

Carlos Henrique, diretor de Assistência Estudantil da UEE-SP